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Imaginário, Literatura e vida, tudo junto e misturado!

Como o jogo do faz de conta é incrível!

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Imaginário, Literatura e vida, tudo junto e misturado!

Trabalho com Literatura Infantil e Juvenil desde 1985, quando resolvi que essa seria a área em que atuaria por opção e desejo. Desde então, venho estudando muito sobre o tema e já passei por diversos segmentos da Literatura Infantil e Juvenil, por isso eu poderia escolher falar sob o ponto de vista da professora, da arte-educadora, da escola, da mãe, ou falar como especialista em Literatura Infantil e Juvenil, mestre em Ciência da Literatura, produtora editorial. Mas desta vez escolhi seguir pelo caminho que anda falando mais alto ao meu coração, o da escritora que este ano está comemorando 25 do primeiro contrato assinado, e 26 anos da publicação do primeiro livro. Mas ao mesmo tempo, falar da escritora envolve tudo isso: tudo o que fui, e sou.
Nestes anos todos, muita coisa em relação ao livro e à leitura cresceu no Brasil, mas ainda há muito por fazer, sobretudo, se pensarmos em um país tão grande como o nosso. Temos uma Literatura Infantil e Juvenil que vem crescendo e se fortalecendo cada vez mais. Temos  excelentes escritores e ilustradores, alguns bons editores e uma Literatura Infantil e Juvenil marcada por aprender a driblar ditaduras. Primeiramente a ditadura militar, que achando que Literatura para crianças e jovens era uma coisa menor, não deu bola para os excelentes textos criativos que foram escritos naquela época e que souberam furar o cerco dos silêncios impostos pela ditadura militar. Textos que fizeram muitas crianças e jovens enxergarem mais longe. Eu mesma fui uma dessas crianças. Nascida em 1966, cresci lendo as histórias de Lygia Bojunga, Ana Maria Machado, Maria Clara Machado, Ruth Rocha, Fernanda Lopes de Almeida, muitos contos de fada e a antiga Revista Recreio, que era o que tinha de vanguarda em revistas infantis naquela época. Cresci lendo e escutando histórias que me permitiram morar em outros mundos e abriram meus horizontes. Quem conhece a obra dessas autoras sabe bem o que estou falando. Cresci lendo histórias cheias de mundos imaginários e ao mesmo tempo histórias que me permitiram entrar em contato com a humanidade, com os medos, alegrias, dores, tristezas. Meus pais nunca censuraram histórias porque elas eram tristes ou me colocariam em contato com a morte ou as perdas. Muito pelo contrário, foram exatamente histórias tristes ou com perdas que me educaram para entender melhor os meus sentimentos e as minhas dores. Paralelamente, eu brincava e inventava muito, inventava os mundos onde eu queria morar.
Menina inventadeira que fui, nunca me contentei apenas com uma única vida. Achava um absurdo a gente só poder viver uma vida. Achava que uma Anna Claudia só era muito pouco. A sorte é que eu tenho nome duplo e cresci com muitas possibilidades de ser: Anna, Anninha, Claudia, Claudinha, Anna Claudia, Clau, cada uma podendo ser uma pessoa diferente. Quando virei adolescente e descobri Fernando Pessoa e seus heterônimos, achei uma maravilha. Me senti segura e em casa. Outro fator importante é que cresci em uma família onde brincadeira de criança era algo permitido e livre. Nas brincadeiras podíamos brincar de ser o que desejássemos. Na minha casa nunca teve essa história de brincadeira de menino e brincadeira de menina. Eu e meus irmãos brincávamos de tudo. Bonecas, bonecos, livros, carrinhos, jogos, bola, botão, pique, polícia e ladrão, corrida, bicicleta. Tudo que era brincadeira de criança a gente curtia. Eu entrava neste mundo da brincadeira e lá eu sabia que as regras eram outras, diferentes dessa suposta vida real. Brincadeira era brincadeira, vida real era vida real. Mas ao mesmo tempo a brincadeira era real e tudo que acontecia lá era de verdade, na verdade da brincadeira. E se eu estivesse brincando só com meninas e uma delas tivesse que representar o papel de menino isso não era um problema. Ninguém achava que ela ia deixar de ser menina só porque fez o papel do príncipe e beijou a princesa na boca. Quando a brincadeira acabava tudo voltava a ser como era antes.
Então, desde cedo descobri que o faz-de-conta era incrível e que eu poderia usá-lo a meu favor. E descobri que ao escrever eu podia fazer exatamente o que eu fazia quando pequena ao brincar: inventar mundos, pessoas e histórias. Ao escrever eu podia recriar o real. Inventar novas vidas, ser outras pessoas, viver outras vidas. Descobri muito cedo que a vida me faltava. Nunca estava satisfeita. Sempre queria um algo mais. Mas eu era criança, não entendia muito bem essa história de falta. Só sabia que existia uma coisa que me deixava mais feliz. A brincadeira. O jogo do faz de conta. O jogo da imaginação. E como eu adorava brincar e inventar que a vida podia ser diferente… Minha mãe chegava a dizer que não sabia onde cabia tanta imaginação numa menina só. Claro que eu não sabia explicar essa sensação quando menina, mas sabia que se a vida não me desse qualquer coisa, eu podia inventar. Eu inventava fazenda com cavalos, montanhas, cachoeiras, casa com varanda grande, muitos primos brincando. Na vida de verdade eu não tinha nada disso, mas no faz de conta eu tinha. Passava horas brincando. Às vezes com meus amigos. Às vezes sozinha. Ficava quieta, com o pensamento longe, inventando um mundo novo para morar. Não que eu não gostasse da minha vida. Não era isso. Mas eu não cabia só dentro daquela vida. Queria outras. Por isso, inventava mundos novos. Era como se a brincadeira suprisse minhas faltas e meus desejos de ter e ser diferente de tudo o que eu era. Até hoje não sei se era falta ou excesso de vida. Acho que as duas coisas ao mesmo tempo. Eu tinha excesso de vida dentro de mim, por isso mesmo acho que ela faltava, porque sempre queria mais. Queria conhecer coisas novas, lugares novos, pessoas diferentes. Assim, pude crescer com a criatividade solta e podendo exercer minhas vontades através das brincadeiras, das leituras dos livros e das histórias. Mas nunca ouvi meus pais dizendo que eu deveria ler porque ler era importante. Os livros simplesmente estavam disponíveis em minha casa, como os brinquedos. E meu pai foi um grande leitor. Cresci vendo meu pai ler livros de ficção e jornal e sabendo falar com muita propriedade sobre diversos assuntos. Como eu queria ser inteligente e achava que meu pai era um homem inteligente, tratei de copiar o que ele fazia. Então, eu aprendi a amar os livros pelo silêncio. Estou contando tudo isso, porque isso faz parte da formação da escritora que sou hoje, da escritora e da pessoa comprometida com a Literatura Infantil e Juvenil até o último fio de cabelo.
Em minha jornada como professora, escritora, palestrante, oficineira, mãe, sempre questionei o porquê de os adultos não respeitarem as brincadeiras e as fantasias das crianças. Muitos adultos chegam inclusive a dizer para as crianças ah! Não liga não que isso é de mentirinha, quando elas se entristecem com alguma brincadeira ou quando estão com medo de algum filme ou história. Muitos pais, professores, adultos de um modo geral, não respeitam a criança como um ser inteiro. Estão sempre pensando na criança como um vir-a-ser-adulto. O que a criança vai ser quando crescer? Pensam que ela precisa se preparar para o futuro, estudar para o vestibular, fazer cursos para ser um excelente profissional. Esquecem que a criança sente, pensa e olha o mundo, mas é inteira, é criança. Talvez esses adultos tenham se esquecido da necessidade da formação emocional das crianças: que é pelo brincar livre, prazeroso, fantástico, que a criança poderá ter a chance de reelaborar a sua realidade. Talvez não me lembrem mais capacidade que tinham quando crianças de olhar para vida com olhos mais simples, mais verdadeiros, mais íntegros. Será por isso que os adultos temem tanto o imaginário e o fantástico? A criança, ao brincar, pode, através do faz-de-conta, alçar vôo para um mundo imaginário, um mundo todo seu, recriado, no qual ela pode ser e viver o que bem desejar. Mundo este em que adulto nenhum poderá encontrá-la. Por isso, sempre associo o artista ao criar com a criança que brinca. O escritor também cria um mundo imaginário para reinventar a vida, ou para falar de outras possibilidades de vida. O escritor cria e recria histórias de acordo com seus desejos, sonhos, delírios, vontades. O escritor sonha novas possibilidades de ser e viver.
Acredito que as crianças que crescem escutando boas histórias são crianças com uma capacidade de sonhar. Refiro-me aqui às histórias da literatura fantástica, poética, imaginativa, e não aos livros para crianças que não são literatura e sim histórias didático-moralizantes. Quanto mais longe se sonha, mais a imaginação se solta e alça vôos mais incríveis. Tudo é possível quando se brinca. Na brincadeira, escondemos nossos desejos mais secretos, realizamos nossas vontades mais profundas, experimentamos ser o que quisermos ser. E é esse mesmo efeito que se tem ao lermos uma história fantástica, recheada de personagens e mundos imaginários. Lendo e brincando, descobri que as pessoas são diferentes, que existem muitos jeitos de ver o mundo, e temos que acreditar sempre nas nossas histórias e no poder do imaginário. A arte oferece inesperadas possibilidades de ser e viver outras vidas. E a criança que brinca de faz-de-conta também encontra outras possibilidades de ser e viver, pois através da ficção e da brincadeira podemos reinventar a nossa própria história.
Quando comecei a escrever, tudo o que tinha vivido, tudo o que me formou ao longo da minha história está de certa forma refletido nos textos. Meu olhar para o mundo, para a vida, para o ser humano. Sei que não optei por um caminho fácil, gosto da busca do autoconhecimento, das questões que afligem os seres humanos, do respeito por sermos quem desejamos ser. Tive o privilégio de ganhar texto de quarta capa de Ana Maria Machado em meu livro de estréia, em 1992. Ela escreveu algo que acalmou meu coração: “o que ela conta não é nenhuma aventura fácil, cheia de ação e peripécias. Bem diferente disso, é a narrativa de uma busca interior num labirinto simbólico e abstrato, com dores e perdas, inquietações metafísicas e mistérios transcendentais. Escrita numa linguagem capaz de atingir diretamente ao leitor jovem, que com a autora compartilhe essa mesma procura de sentido para a vida, ou que igualmente se sinta enredado em uma angustiada e densa teia de incomunicabilidade. Anna Claudia fala diretamente à alma destes adolescentes especiais, sensíveis e enrolados. E existem legiões deles. Ou seja, ela tem tudo para fazer o maior sucesso”. Isso acalmou meu coração, porque eu não havia escolhido um caminho fácil dentro do mercado editorial. Mas eu não saberia ser diferente, esse era o meu caminho, essa era a minha história, a minha trajetória. Ainda hoje, alguns de meus livros são barrados na escola por terem um tema um pouco mais delicado, ou uma abordagem mais humana, sem rodeios sobre a vida. Mas não vou deixar de escrever o que acredito porque existe um mercado editorial que nos impõe caminhos, ou porque o governo compra livros e tem suas preferências, ou porque muitas editoras querem publicar apenas o que supõe que o governo vai querer comprar: o governo ou as escolas, que é o espaço onde a Literatura Infantil e Juvenil circula em alta escala. Então, acho que nós, autores, estamos hoje, mais uma vez, buscando saídas para burlar uma ditadura, desta vez a ditadura da hipocrisia, do falso moralismo e do politicamente correto que vem se abatendo em nossa sociedade como um todo. Daquilo que as pessoas têm medo de falar, pensar, daquilo que não pode ser dito nos livros, mas que via internet ou televisão pode. Na TV e na internet os assuntos censurados nos livros correm soltos, sem que pais ou educadores se preocupem tanto. Por que tanto medo das histórias e dos livros? Certamente porque nos fazem pensar, questionar a vida e o mundo, ou porque nos trazem perguntas. Perguntas que muitas vezes os adultos não estão preparados para responder para as crianças e os jovens.
Por isso mesmo, a escola não deveria apenas se apropriar da Literatura Infantil e Juvenil para estudos dirigidos, mas sim para proporcionar um encontro de encantamento com as histórias. A escola deveria estar preocupada com a formação do leitor, em dar oportunidades para que as crianças e os jovens conhecessem outras vidas criadas nas histórias, viajassem por outros caminhos e se descobrissem entre uma palavra e outra. Literatura Infantil e Juvenil não foi feita para passar lições de moral e aprendizados. Mas nem todas as escolas abrem espaço para que se discuta aquilo que não é passível de ser medido. Como medir emoções? Como medir dores ou alegrias que podem surgir a partir da leitura de um livro? Como medir o imaginário? Como falar sobre morte, perdas, alegrias, frustrações, abandonos, amores, nascimentos, separações, sexualidade, abuso sexual, homossexualidade? Cada um à sua maneira vai vivenciar todos os grandes temas da vida. E estes temas estão nos livros de literatura, então, como trabalhar com esses temas na Literatura Infantil e Juvenil, já que ela está diretamente ligada à escola e às censuras impostas por esta? Mas ainda bem que existem  autores que escrevem histórias absolutamente fantásticas, nas quais as personagens podem estar presentes de corpo e alma. Onde se pode falar das dores e das alegrias, das grandes descobertas da vida. Por isso, o papel da literatura dentro da escola é essencial, pois se difere dos livros didáticos na medida em que é na literatura de ficção que o leitor vai poder encontrar personagens paradoxais. Escrever Literatura Infantil e Juvenil é saber falar sobre qualquer tema dentro de uma nova perspectiva, é dar novos horizontes, é criar novas  possibilidades. Saber construir o mundo da ficção em qualquer literatura, seja ela infantil, juvenil, ou “adultil”, é muito semelhante. É necessário criar uma base sólida na qual os verdadeiros valores do fazer literário possam estar ali, entre as palavras, funcionando como um convite ao leitor, como um jogo para o qual se convida o leitor a entrar e passear pelo mundo da ficção.
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Através da ficção e da brincadeira podemos reinventar a nossa própria história.

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